6 de julho de 1957: Paul McCartney comparece a uma festa, e, através de um amigo em comum, é apresentado a John Lennon, líder dos “Quarrymen”, um pequeno grupo de “skiffle” da escola onde estudava, em Liverpool.
O quarteto posa no cais de Liverpool (Foto original na Beatles Story)
Nenhum dos demais jovens presentes jamais imaginaria, mas aquela tarde de matinée no pátio da Igreja de St Peter entraria para a história do rock e mudaria para sempre o cenário musical não somente da Inglaterra, mas de todo o mundo.
Paul ingressa no Quarrymen e convence John a incluir George Harrison – que contava com apenas 14 anos – no grupo, que em 1960 teve seu nome modificado para “The Beatles”, e com a chegada de Ringo Starr em 1962 formaria o quarteto mais famoso do mundo do rock.
Instrumentos originais e foto do Quarrymen, primeira banda de John Lennon
Passadas mais de cinco décadas desde o início do grupo, os Beatles continuam fascinando e despertando legiões de novos fãs mundo afora, e muitos lugares – especialmente Liverpool, no Reino Unido – ficaram marcados como pontos de peregrinação dos “Beatlemaníacos” de ontem e de hoje.
Infância
Nascidos durante a Segunda Grande Guerra, não foram poucos os episódios difíceis já nos primeiros dias de vida dos integrantes do “Fab Four”. John, por exemplo, veio ao mundo durante um devastador bombardeio, que deixou a cidade de Liverpool sem luz. Recebeu de sua mãe o nome de John Winston Lennon, sendo o seu nome do meio, pouco conhecido do público, uma homenagem ao líder britânico Winston Churchill.
A maior parte das casas e lugares onde os Beatles viveram seus primeiros dias continua preservada, e um passeio por Liverpool revela cores e detalhes da infância e adolescência dos rapazes.
Casa onde John passou sua infância, na Manlove Avenue
Após a separação dos pais, Lennon foi viver com sua tia Mimi, numa confortável casa em Menlove Avenue, e decorreram muitos anos até que voltasse a se relacionar com sua mãe, que lhe ensinou os primeiros acordes de violão e veio a falecer logo depois, em um atropelamento.
Richard Starkey nasceu em uma família numerosa e de poucos recursos, e passou boa parte de sua infância lutando contra uma série de doenças, o que atrasou sua vida escolar, mas foi durante uma de suas estadias forçadas no hospital que recebeu suas primeiras aulas de bateria. O apelindo “Ringo” veio do seu gosto por anéis (“ring” em inglês).
A residência de nascimento deste Beatle já não está mais disponível para visitação, podendo ser vista apenas ao longe, apontada pelo líder da excursão que nos levou aos recantos de "beatlemaníacos" de Liverpool. Dentro em breve, nem isto será mais possível, pois este conjunto de residências muito simples e singelas foi marcado para demolição, o que cederá espaço para novos conjuntos habitacionais.
Nesta confortável casa, Paul passou sua infância
Paul McCartney poderia ser considerado o mais afortunado dos Beatles por nascer em uma casa de classe média, contar com o carinho dos pais e até mesmo um piano em casa. Foi incentivado aos estudos musicais, e frequentou boas escolas, onde foi aluno brilhante, mas a tragédia também marcou sua família, ao perder a mãe para o câncer aos 14 anos de idade.
George Harrison também nasceu em uma família de poucas posses e morava em Arnold Grove, em uma pequena casa cujo banheiro estava instalado no quintal. Desde muito cedo foi fascinado por guitarras, e costumava desenhar violões nas margens de seus cadernos. Recebeu de presente de sua mãe um violão surrado e tornou-se um verdadeiro prodígio no instrumento antes de completar 15 anos.
Nesta casa, de um bairro operário de Liverpool, George passou sua infância
Inspiração
Há muito tempo atrás ouvi que as preocupações e ocupações cotidianas e pequenas verdades locais acabam por se tornar hits universais, pois todos, de uma forma ou outra compartilham histórias em comum, e com os Beatles não foi diferente.
A bordo do “Magical Mistery Tour” ouvi do simpático cavalheiro que fazia as vezes de guia do passeio e tivera o privilégio de viver na mesma cidade e tempo do início deste fenômeno, que os Beatles nada mais cantavam do que suas próprias experiências , e descreviam locais que conheciam muito bem.
Penny Lane: os Beatles descreveram em suas canções lugares de sua cidade natal
Penny Lane era a rua que John e Paul tomavam à caminho da escola, e o salão de barbeiro mencionado na canção – que muitos dizem ser onde aparavam os cabelos naqueles dias de estudo - muito embora citado com alguma licença poética, por lá permanece, e é visto com simpatia pelos muitos fãs.
Durante a infância, John costumava brincar nos jardins de um antigo orfanato nas proximidades de sua casa, conhecido como “Strawberry Field” causando enormes preocupações em sua tia-mãe Mimi, com as longas ausências do menino, e até mesmo a marota resposta do menino “Não há nada como o que se preocupar” (Nothing to get hung about) foi inserida, um tanto fora do contexto de um dos grandes sucessos do grupo.
Muitas pixações marcam o portão do antigo orfanato de Strawberry Field
Questionado por um repórter, Paul responde que “Eleanor Rigby” é um personagem fictício criado para a canção, e que seu nome foi inventado para se encaixar na melodia, mas para a surpresa de todos – inclusive do músico – um túmulo com este exato nome foi encontrado no cemitério de St Peter, local muito frequentado por ele e John. Muitos especulam que Paul já haveria visto o túmulo e o nome, em sua memória inconsciente, surgiu em sua obra muitos anos depois.
Liverpool
Andar por Liverpool, ainda nos dias de hoje, é viver a “Beatlemania”. Fotos e estátuas dos rapazes estão nos quatro cantos, e é quase impossível dissociar seus nomes da cidade.
Visitar a “The Beatles Story”, museu dedicado à preservação da história da banda é praticamente uma obrigação a quem se digne a visitar a antiga cidade portuária.
Fachada da Beatles Story, misto de museu e loja temática
Objetos como primeiro violão de George, os célebres óculos redondos de John, roupas e fotos de diversas fases da carreira dos Beatles estão expostos, e cenários cuidadosamente preparados mostram lugares importantes e eventos marcantes.
Ao final do museu há uma loja temática com todos os tipos de souvenires descolados que um fã poderia desejar. Camisetas, chaveiros, pôsteres, bolsas, adesivos, canecos, enfim... Todo um sortimento!
Objetos de John Lennon na Beatles Story
Aproveite sua visita ao museu para apreciar a Albert Dock. Em um exemplo de transformação urbana, o antigo píer do porto de Liverpool foi transformado em um sensacional centro de lazer, que além da Beatles Story abriga restaurantes, museus, lanchonetes e a sensacional Echo Arena, uma casa de espetáculos que movimenta uma concorrida agenda de shows praticamente todas as noites.
Uma das formas de curtir a Albert Dock é um passeio à bordo do Yellow Duck Marine, um curioso veículo anfíbio, misto de ônibus e barco, que oferece saídas constantes para um giro pelo cais e também pelo centro da cidade.
Magical Mistery Tour & Cavern Club
O passeio, que parte de Abert Dock tem seu nome inspirado em mais uma das canções clássicas dos Beatles, que por sua vez novamente foi inspirada em eventos do quotidiano inglês. As “Mistery Tours” eram bastante comuns na década de 60, e eram excursões de um único dia, frequentadas especialmente pela classe operária, onde bilhetes eram comprados sem saber qual local seria visitado.
Confesso que na primeira olhadela me pareceu algo um tanto excessivamente caricato, mas devo admitir que o ônibus pintado em cores psicodélicas é operado por profundos conhecedores da história da banda, e consegue ao longo de poucas horas mostrar os pontos mais importantes da cidade ligados aos quarteto e contar saborosas histórias de sua juventude.
O ônibus da Magical Mistery Tour estaciona na Penny Lane
A excursão é breve e apresenta um bom panorama da cidade, mas quem deseja apreciar os locais com maior tranquilidade precisará voltar.
Como era de se esperar, a tour termina nas proximidades do célebre Cavern Club, bar que celebrizou o início da carreira dos Beatles. Inicialmente dedicado aos marinheiros que procuravam diversão em suas horas de lazer no porto, o Cavern passa a atrair grupos de rock em um movimento que ficou conhecido como Mersey Beat (o Mersey é o rio que atravessa a cidade).
Grupos "cover" dos Beatles agitam a noite no Cavern Club quase diariamente
Em seus anos dourados, nomes como Beatles, Yardbirds, Eric Clapton, Stepenwolf e até mesmo o norte-americano Jimi Hendrix frequentaram o palco deste pequenino e escuro pub. Descer os muitos degraus desde a rua até o porão onde fica o bar e curtir bons shows de bandas covers dos Beatles, que lá se apresentam diariamente são uma bela experiência! É hora de provar um dos bons “pints” (canecos de meio litro) de cerveja britânica, fechar os olhos e imaginar aqueles anos do início do rock & roll.